segunda-feira, 21 de março de 2016

IMPERIALISMO ITALIANO. 9A e B.


Enquanto a maioria dos países europeus lançava-se em busca de colônias na África e na Ásia, durante a segunda metade do século XIX, a Itália saia de um agitado processo de unificação de seu território. Por isso, sua preocupação maior era com os seus vários problemas internos e com o seu reconhecimento enquanto nação no exterior.


Um dos graves problemas internos era a sua economia que continuava predominantemente agrícola. Agricultura arcaica, quase sempre extensiva e que proporcionava poucos lucros. A partir de 1880, ocorreu uma baixa nos preços dos produtos agrícolas italianos, ocasionada pela concorrência da África do Norte, França, Rússia e América, o que levou a uma grave crise econômica no país.


Por outro lado, o setor industrial possuía uma produção muito pequena até 1885, quando se iniciou um processo gradual de crescimento. No entanto, a industrialização ficou, por um longo tempo, concentrada no Norte da Península. O Sul, com uma economia problemática, viu sua situação se agravar com os efeitos da pressão demográfica.


Um dos maiores problemas sociais da Itália na segunda metade do século XIX foi o seu aumento populacional. No período entre 1861 e 1900, a população italiana aumentou de 26 milhões para 32 milhões. Esse crescimento demográfico, somado à estagnação da produção agrícola, a crescente concentração de terras nas mãos de poucos proprietários e a distribuição lenta e desigual da industrialização, levaram à emigração em massa. Segundo Zuleika Alvim, entre 1841 e 1940, sete milhões e meio de italianos deixaram definitivamente a pátria, e o quadro ganha maiores proporções se juntarmos a essa cifra 13 milhões de emigrantes temporários que cruzaram a Europa, ou mesmo se dirigiram à América durante o período


“A emigração italiana constituiu, assim, um fenômeno essencial de equilíbrio sócio-econômico. De um lado, porque aliviava a pressão sobre as cidades e a indústria nascente, incapazes de absorver o excedente de mão-de-obra, e, de outro lado, porque, com o dinheiro enviado pelos expatriados aos parentes, afastava-se a possibilidade de uma rebelião social.”


Outro problema foi a permanência de conflitos e contrastes regionais, cujo principal exemplo era o desprezo com o qual os nortistas encaravam os sulistas. Segundo Eric J. Hobsbawm, a Itália representava um caso extremo de divergência entre nacionalismo e nação-estado, visto que não havia precedente histórico posterior à Roma antiga para uma unificação administrativa de toda a área compreendida entre os Alpes e a Sicília. Segundo o autor, no momento da unificação, estimou-se que não mais de 2,5% de seus habitantes falavam a língua italiana no dia-a-dia, o resto falando idiomas tão diferentes que os professores enviados pelo Estado italiano à Sicília, na década de 1860, foram confundidos com ingleses. Deste modo, um dos grandes esforços após se fazer a Itália foi o de se fazer italianos.


Por outro lado, os líderes do “Risorgimento” achavam que a Itália era uma entidade incompleta. De acordo com Henk Wesseling, o novo país“Tinha uma capital imperial, mas nenhum império, e esse império fazia parte do sonho italiano”. Porém, apesar do interesse em conquistar novos territórios, principalmente no Norte da África, devido a sua proximidade e a vocação mediterrânica da península, a Itália não estava em posição de exigir nenhuma colônia, mesmo porque sua preocupação girava em torno da manutenção da ordem interna.


Deste modo, o Tratado de Berlim não teve nada a oferecer para a Itália, apesar de ter afetado profundamente os quadros mentais do país. Segundo Wessinling, a ocupação da Tunísia pelos franceses foi encarada como uma humilhação para os italianos, já que, há muito, a Itália cobiçava a região, sendo que a antiga Cartago havia sido parte do Império Romano. A opinião pública reagiu com violência, mas, em uma guerra contra a França, a Itália certamente sairia derrotada. No entanto, esse fato foi fundamental para a mudança da política externa italiana.


Deixando antigas desavenças de lado, a Itália, para se fortalecer externamente, formou alianças com a Áustria-Hungria e com a Alemanha. A“Tríplice Aliança” de 1882 foi o tratado diplomático mais permanente do período entre 1871 a 1914. Foi fundamental para que reflorescesse as aspirações coloniais do país.


Essas aspirações tinham um duplo sentido. Por um lado, se pensava em transformar a Itália em uma potência e, para que isso acontecesse, seria necessária a construção de um Império. A aquisição de colônias era um símbolo de “status” em si, independente de seu valor. Por outro lado, visava-se diminuir os descontentamentos internos e reforçar os sentimentos nacionais, já que, segundo Hobsbawm, “o império era um excelente aglutinante ideológico”. Buscava-se fortalecer a identificação com o Estado através da ideologia imperial, principalmente tendo em vista o fato de a Itália ter sido o berço de um dos maiores Impérios da história durante a antiguidade. Portanto, o Império era um símbolo de poder necessário para a recente nação italiana, tanto a nível externo quanto interno. Essas idéias encontraram em Francesco Crispi (1818-1901) um esforço no sentido de concretizá-las.


Crispi pensava que o passado glorioso da Itália exigia a posse de colônias. Ao invés de iniciar o expansionismo italiano no Mediterrâneo, voltou seus olhos para o Mar Vermelho e, em 05 de julho de 1882, conseguiu fazer da Baia de Assab a primeira posse colonial italiana. Em 1885, conseguiu anexar Massawa. Iniciou-se, a partir daí, um esforço para unir as duas colônias, objetivo alcançado em 1890. Fundou-se, assim, a colônia de Eritréia.


Em 1887, os italianos receberam de presente do sultão de Zanzibar um protetorado sobre toda a costa leste da África, embrião da Somália italiana. Em 24 de março e 15 de abril de 1891, Itália e Grã-Bretanha assinaram dois tratados onde se delimitavam as respectivas esferas de influência na África Oriental. O objetivo desse tratado, para os britânicos, era afastar o interesse italiano no Nilo. Contudo, a Itália concentrava suas ambições em outra região, a Etiópia.


O fracasso italiano na Etiópia


A Etiópia do século XIX, como a maioria dos países africanos, sofria vários tipos de influência estrangeira. No entanto, um governante de fins do século XIX, Menelik II, tornou-se um hábil diplomata que buscou preservar a autonomia de seu Estado. Nesse sentido, em 1889, assinou, com o italiano Conde Antonelli, o Tratado de Uccialli, que reconhecia a ocupação italiana em Eritréia e assegurava à Etiópia o direito de importar armas de fogo pelo porto de Massauá. Em seu artigo 17, o tratado declarava, segundo o texto em aramaico que, se necessário, o rei etíope usaria os serviços diplomáticos da Itália. O texto em italiano, ao contrário, dizia que o rei era obrigado a usar esses serviços. Com isso, segundo a versão italiana, a Etiópia se tornaria um protetorado da Itália.


Devido ao mal entendido, em 1891, Menelik II enviou uma circular aos governos da Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Rússia, definindo as fronteiras etíopes. Afirmava que não tinha a intenção de assistir de braços cruzados a ação de potências vindas de além mar para dividir a África.


Invocando o artigo 17, em 1895, os italianos invadiram o Tigre, sob o comando do general Baratieri, governador da Eritréia. Em setembro do mesmo ano, Menelik II declarou guerra à Itália. As forças etíopes possuíam cerca de 100 mil homens, dentre os quais 20 mil eram armados apenas de lanças e espadas. As forças italianas, por outro lado, eram constituídas de 18 mil homens, sendo 10 mil europeus.


De início, as forças italianas conseguiram algumas vitórias levantando fortificações e tentando exaurir os inimigos. No entanto, a batalha de Adowa, em 1896, foi decisiva, com uma vitória esmagadora dos exércitos etíopes. Foram mais de 6 mil italianos mortos, 1500 feridos e 1800 presos. Com mais da metade das tropas dizimadas, a Itália teve de pedir paz cinco dias depois. A soberania e a independência da Etiópia tiveram de ser reconhecidas.


A derrota foi para a Itália extremamente vergonhosa. De acordo com Hobsbawm, esse fracasso fez com que os estado italiano buscasse apoio no nacionalismo:


“Realmente, os homens que primeiro adotaram o novo nome de “nacionalistas” foram, não raro, aqueles que se sentiram impelidos à ação política pela experiência da derrota de seus Estados na guerra, tais como Maurice Barrès (1862-1923) e Paul Deroulède (1846-1914), após a vitória alemã sobre a França em 1870-1871, e Enrico Corradini (1865-1931) após a derrota, ainda mais humilhante, da Itália pela Etiópia em 1896.”


Portanto, o espírito nacional deveria servir para diminuir os abalos sofridos no exterior. Neste sentido, ser nacionalista seria amar a Itália mesmo nas situações mais adversas.


O desastre na Etiópia teve um impacto fulminante no otimismo até então crescente da Itália. O grande beneficiário da guerra foi a Grã-Bretanha que, em 12 de março de 1896, iniciou sua reconquista sobre o Sudão com o pretexto de socorrer os italianos.


A política imperialista da Itália até a Primeira Guerra Mundial


Com a desilusão na Etiópia, a Itália passou a desejar estender sua influência sobre o litoral oriental Adriático. Porém, a Áustria-Hungria se apresentou como um considerável obstáculo em tais pretensões. Nesse sentido, iniciou-se uma reaproximação com a França e, com isso, os laços que a ligavam à “Tríplice Aliança” se afrouxaram.


As boas relações diplomáticas com a França, no entanto, não duraram por muito tempo. No início do século XX, a busca de posses no Mediterrâneo levou a Itália a uma guerra contra a Turquia, o que reacendeu a tensão entre Itália e França. Em 1911, a Itália conseguiu invadir a Líbia do Império Otomano.


Por outro lado, a crise nos Balcãs fez com que a tensão entre Áustria e Itália aumentasse ainda mais. Quando a Áustria anexou formalmente a Bósnia-Heszergovirna, o conflito de influências entre as duas potências interessadas na região deixou ainda mais evidente os sinais da desintegração da“Tríplice Aliança”. Em 1915, a Itália declarou guerra aos antigos aliados, após um ano de neutralidade.


Portanto, a política expansionista italiana, no início do século XX, levou o país a confrontos com outras potências, sendo um dos fatores fundamentais para a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial e para a escolha do lado ao qual lutaria. Os interesses nos Bálcãs fizeram com que a“Tríplice Aliança” se desmembrasse, transformando antigos aliados em inimigos declarados.


Conclusão:


A Itália entrou na “Era dos Impérios” tardiamente. Enquanto os demais países europeus já estavam fazendo a divisão do mundo entre si, a Itália tentava resolver os seus problemas internos e se consolidar como nação. No entanto, o pensamento imperialista fazia parte da sociedade italiana, que sempre relembrava o seu passado glorioso como Império Romano.


Quando as idéias imperialistas começaram a tomar uma forma mais concreta, um dos objetivos foi o de se afirmar enquanto potência. Ter um Império seria adquirir um “status” importante para o país recém-unificado, visto que, a idéia de Império no século XIX estava intimamente ligada à idéia de poder. É com esse ideal que se deu a posse das primeiras colônias na África. Como afirma Hobsbawm, “A Itália insistiu em tomar extensões decididamente desinteressadas de desertos e montanhas africanas, no intuito de dar respaldo à sua posição de grande potência (...)”. O valor econômico das colônias era o que menos importava, já que o que estava em jogo era a função simbólica das mesmas.


Ao mesmo tempo, o imperialismo fortalecia um sentimento nacional dentro da península, que ainda se encontrava frágil no período pós-“risorgimento”. A intenção era reduzir os descontentamentos internos através dos laços com a nação recém-criada, laços esses que seriam mais fortes se a Itália fosse um Império.


Contudo, a Itália iniciou seu expansionismo num período em que a África e a Ásia já estavam quase totalmente divididas entre as grandes potências. A Etiópia seria, nesse sentido, uma colônia em potencial, visto que, era um reino independente cercada de possessões européias. Se o início da guerra contra Menelik II tinha o objetivo de engrandecer a nação italiana, a derrota fez com que o efeito fosse inverso. Os italianos tinham tombado diante de povos considerados “primitivos” e “incivilizados”.


No início do século XX, o imperialismo italiano buscou ampliar a influência do país nos Bálcãs, o que levou a embates contra a Áustria. Em 1911, a conquista da Líbia ocorreu em um período de enorme tensão entre as potências. Deste modo, o expansionismo do início do século XX foi determinante para a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial.


Assim, pode-se definir o imperialismo italiano como um imperialismo frágil, se comparado com o das demais potências da Europa. Como foi apresentado, longe de serem grandiosas, as aventuras coloniais da Itália tiveram, na maioria das vezes, conseqüências desastrosas.


Bibliografia:


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BRUNSCHWIG, Henri. A Partilha da África Negra. São Paulo: Perspectiva, 1993.


FERRO, Marc (Org.). O Livro Negro do Colonialismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.


HOBSBAWM, Eric J.. A Era do Capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.


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WESSELING, H. L.. Dividir para Dominar: A Partilha da África (1880-1914). Rio de Janeiro: Editora UFRJ – Editora Revan, 1998.



Mestrando em História pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), bolsista Capes/Reuni.


Risorgimento (Ressurgimento) é um nome costumeiramente utilizado para representar a unificação italiana.


Em 1861, o Parlamento Italiano proclamou o Reino da Itália, composto por grande parte do atual território, tendo Vitor Emanuel II como primeiro soberano. Em 1866, aliada à Prússia na guerra contra a Áustria, a Itália adquiriu Veneza. Derrotados os franceses em Sedan, os italianos liderados por Giuseppe Garibaldi entraram em Roma, que foi declarada capital do Reino (1870), ficando consumada a maior parte da unificação italiana, que, no entanto, só se completaria em definitivo em 1929, com o Tratado de Latrão.


ALVIM, Zuleika MariaForcione. O Brasil Italiano (1880-1920). IN: FAUSTO, Boris (Org.). Fazer a América: A imigração em massa para a América Latina. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 386.


Idem, ibidem.

HOBSBAWM, Eric J.. A Era do Capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 134.

WESSELING, H. L.. Dividir para Dominar: A Partilha da África (1880-1914). Rio de Janeiro: Editora UFRJ – Editora Revan, 1998, p. 264. Resultado de um Congresso realizado entre 1884 e 1885 cuja finalidade era organizar a ocupação da África pelas potências coloniais.


HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios (1875-1914). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 106.

RODRIGUES, João Carlos. Pequena História da África Negra. São Paulo: Globo, 1990, p. 148.


HOBSBAWM, Eric J. Op. Cit., (1988), p. 226.

HOBSBAWM, Eric J. Op. Cit., (1988), p. 103.

Agradecimentos: http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=alunos&id=357

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