segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

AS PALAVRAS DE DEUS











Enfraquecido, curvado sob o peso da idade, o velho Rá está venerável as menores doenças. Certa manhã, um peso insuportável comprime seu crânio, uma dor lancinante o domina. Seu estado deplorável inquieta os que o cercam, e alguns deles decidem orar ao deus Thot, o Íbis sagrado, pedindo que venha socorrer seu amo.

Thot vai à cabeceira da cama onde repousa o deus solar. Depois de descobrir a natureza do mal, pronuncia solenemente algumas palavras mágicas, e o poderoso encantamento vence a doença, que de imediato cede ante a magia de thot, o que cura.
Senhor da voz, mestre da palavra, esse deus é famoso em toda a parte por seus profundos conhecimentos em todos os domínios, até os mais misteriosos. Venerado em vários santuários (principalmente em Hermópolis),Thot o sábio as vezes é representado como um grande babuíno branco, às vezes como um Íbis. Seu espírito criativo produz invenções o tempo todo. Mal acaba de criar os diferentes idiomas humanos. Já está imaginando os algarismos, o cálculo, a geometria e a astronomia. Depois, resolve medir o tempo e cria o primeiro calendário. Sua mente engenhosa também dá origem aos jogos de xadrez e de dados. Um dia, é atormentado por uma idéia: a vida seria mais simples se fosse possível anotar, por meio de signos com os quais todos concordassem,os pensamentos e acontecimentos que se desejasse conservar! Thot se concentra nesse problema e acaba por resolvê-lo: o deus-íbis inventa a escrita. Esse saber, no entanto, de nada adianta se não for divulgado. Thot, por ser bom e desejar ardentemente que suas criações sejam úteis aos egípcios, resolve ir a para Tebas, a cidade nobre, de onde Amon – Rá domina todo país. Dirigindo com eloqüência ao deus soberano, mostra-lhe sua descoberta e esforçar-se por demonstrar como elas poderiam beneficiar todo o povo. Amon o interroga durante muito tempo e pede inúmeras explicações. Algumas invenções parecem-lhe extremamente úteis, outras Amon-Rá considera supérfluas. Finalmente, a discussão recai sobre a escrita.
- Essa – diz Thot – é minha melhor idéia. Vai permitir que os egípcios adquiram e perpetuem uma ciência inigualável. Graças à ela , poderão guardar a lembrança de todas as coisas. A escrita vai acabar com a ignorância e evitar o esquecimento.
Amon discorda
- Thot grande espírito luminoso, creio que te enganas e que tua engenhosa descoberta será nefasta! Sem a necessidade de exercitar a memória, os homens esquecerão tudo. Ao confiar na escrita, não mais se sentirão obrigados a guardar as coisas, sabendo que tudo poderão decifrar-se por meio de teus signos...Além disso, vão considerar-se competentes em múltiplos domínios nos quais, sem os escritos, seriam fracos e incapazes. O que está dando a eles é apenas um saber falso e sedutor. Mas apesar de suas reservas, Amon decide colocar todas as invenções de Thot à disposição dos egípcios.











OS DISCIPULOS DE THOT
Uma velha árvore estende sua ramagem imponente no meio do salão sagrado do templo de Aton- Rá, em Heliópolis. Nesse santo lugar, Thot e a deusa Seschat, mestra da escrita e soberana da casa dos livros,dedicam-se a uma tarefa curiosa. Nas folhas da árvore, inscrevem o nome de cada um dos monarcas que reinaram sobre o Egito. Assim, a lembrança dos reis e de seus feitos passará a posteridade. A exemplo dessas divindades, os egípcios escrevem muito: anotam tanto os acontecimentos históricos mais importantes quanto aos fatos mais corriqueiros. Os que conhecem a escrita, chamada “palavra do deus”, gozam de consideração e poder – os escribas são os colegas terrestres de Thot. Qualquer pai gostaria de ver seu filho dedicar-se a essa carreira.

É nisso que pensa o velho letrado Duauf, enquanto leva o filho Pepi a escola para realizar os longos e difíceis estudos que farão dele um funcionário do faraó. Antes de se separarem, o velho aconselha o menino.
- Meu filho, dedique-se aos livros de todo o coração, ame-os como a sua própria mãe, pois não há nada mais importantes. Todos os ofícios são cheio de inconvenientes e miséria. Apenas o homem instruído, aquele que se dedica a função de Thot, a nobre carreira das letras, pode usufruir uma felicidade profunda e duradoura.
Pepi sempre se lembrará dessas recomendações,que, no decorrer dos anos de escolas, os professoras não deixarão de repetir. É claro, melhor ser escriba do que suportar as tristezas da vida de um soldado ou existência modesta de um camponês... Ao termino de sua penosa educação, Pepi assumirá as funções num dos escritório da administração real. Lá sob a efígie de um babuíno branco,trabalhará com dedicação, sem se esquecer de, todos os dias, reverenciar e honrar Thot, o secretário dos deuses. E será considerado um homem importante e respeitável, detentor de um saber inacessível aos demais.













OS HIERÓGLIFOS
Os hieróglifos, a escrita sagrada dos egípcios, constituíram durante muito tempo um mistério indecifrável. Desde a antiguidade, causavam admiração nos viajantes gregos, entre os quais o famoso historiador Heródoto. Segundo a mitologia, os hieróglifos foram inventados por Thot, o deus da sabedoria. Talvez ele tenha sido mesmo sábio, ao reservar certos conhecimentos secretos a alguns iniciados e escondê-los do grande público. Tal parece ter sido o ponto de vista dos escribas, os únicos que conseguiam ler os sinais enigmáticos, grafados da direita para a esquerda. Essa fascinante forma de escrita sempre intrigou os pesquisadores. Apenas no século XIX um jovem francês, Champollion, conseguiu decifrar definitivamente o enigma dos hieróglifos.

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