domingo, 15 de janeiro de 2012

CASTELOS DE AREIA, CONCHAS E MORTOS.



CASTELOS DE AREIA, CONCHAS E MORTOS.
"Construídos camada a camada, há 8 mil anos, pelos primeiros povos conhecidos do Brasil,os Sambaquis serviam de moradia, cemitério e palco de festas. Mas sua história ainda é um mistério”.

Eles se elevam na paisagem como simples colina à beira –mar, mas ainda guardam segredos que desafiam os estudiosos. Não são acidentes da natureza. São construções frutos de um trabalho de formiga executado durante anos, que podia passar de geração em geração. Esses montes, que parecem dunas cobertas de grama, foram feitos com pequeníssimos fragmentos,principalmente conchas,em pedacinhos,em lascas,inteiras,depositadas umas sobre as outras,num esforço obstinado e caprichoso. São os sambaquis,nome formado de tamba, que em tupi significa concha, e ki= amontoado. A maioria mede até 6 metros, mas em Santa Catarina,já foram encontrados alguns com 30 e até 70 metros, mesma altura do vão central da ponte Rio –Niterói e bem maior que a Estátua da Liberdade (46metros). As conchas, somavam-se areia, ossos de peixes, restos de fogueira e ferramentas, e também os corpos dos mortos da comunidade. Esses materiais iam formando camadas e constituindo plataformas elevadas que, hoje, são um extraordinário registro dos grupos pré-históricos que viveram há cerca de 8 mil anos no Brasil.
Exímio conhecedor do mar, eles ocuparam uma grande parte do litoral e foram senhores desse espaço até a chegada dos índios tupis à região, por volta de 2 mil anos atrás. O que permitiu que arqueólogos no século XXI se debrucem (na verdade escalem) sobre os costumes desses povos foi,exatamente, o costume enigmático que tinham de construir morros, os sambaquis.
A quantidade de conchas nesses sítios é tamanha que, até meados da década de 80,pensava-se que vinha delas o alimento preferido pelos seus habitantes. Hoje sabe-se que podiam até aproveitar como tira-gosto os berbigões,ostras e mexilhões encontrados na praia, mas seu prato principal era mesmo peixe. O surgimento das colinas artificiais não foi casual,nem efeito do mero descarte de resíduo alimentares, como se acreditou durante muito tempo. Atualmente, os estudiosos concordam que sua construção teve um propósito.
O desafio, agora, é conseguir decifrar que propósito era esse. As pesquisas ainda não chegaram a uma conclusão, mas levantaram várias hipóteses. Os sambaquis podem ter sido um amontoado sobre o qual vivia uma população confusa, que ia largando tudo sob si (lixo, comida, restos de mortos), ou um tipo de cemitério, ou um ambiente misto, loteado em áreas destinadas a diferentes funções, ou, ainda, podem ter servido a rituais e como altivo símbolo de status.
A partir do Sul do país, os sambaquis estão presente numa faixa contínua, desde balneário de Torres (RS) até Cabo Frio (RJ). Desse ponto em diante, desse ponto em diante os registros passam a ser pontuais, no litoral baiano,no Piauí,no Maranhão e Pará mas pode haver mais. “ E muito provável que existam sambaquis no Espírito Santo e no restante do Nordeste,mas há pouquíssima pesquisa nessas regiões. Afirma Maria Dulce Gaspar, professora do UFRJ.
Muitos sambaquis não resistiram ao tempo,atingidos pela mão dos homens ou engolidos pelo mar. Foram destruídos por indústrias, que os utilizaram como matéria prima para a produção de cal, ou pela urbanização das cidades costeiras. Algumas plataformas também podem ter variado de nível ao longo dos anos e, rebaixadas, submergido sob as ondas. Com isso, ainda haveria muita coisa encoberta pelas águas, à espera da evolução das tecnologias de exploração.

RAZÃO SECRETA.
Durante muito tempo, os arqueólogos imaginaram que os sambaquis viviam em cabanas instaladas em cima desses morros. Conchas, ossos de peixe,lascas,ferramentas,esqueletos e buracos de estacas,todos esses elementos misturados seriam indícios de que eles não separavam os ambientes,destinados a ações como comer, despejar o lixo,enterrar os mortos. Faziam tudo no mesmo lugar. Recentemente, no entanto, os estudiosos fizeram novas pesquisas, reviram os estudos, mudaram de idéia e apontaram outros cenários.

De acordo com um deles,os sambaquieiros poderiam viver em uma parte especifica dos morros e depositar os restos de comida (ossos e conchas) em outra. Ninguém faz lascas para sentar em cima. Acredita Maria Cristina Tenório arqueóloga do Rj.

Funeral do pescador
Como eram enterrados os mortos, nos sambaquis que serviam de cemitério.



– Pé no chão.
Piso de conchas de anomalocardia, um tipo de molusco, misturadas com areia e ossos de peixes cobertos por matéria orgânica (resto de alimento). As camadas de conchas se alternavam com as dos mortos.






– Cova Rasa.
Buracos de estacas ao lado de esqueletos indicam que ele devia ficar num jirau. As covas, ovaladas, tinham até 70cm de comprimento e 40cm de profundidade. Os corpos eram amarrados para que ficassem em posição fetal.



– Presentes.
Sobre o corpo, iam oferendas, animais mortos (os mesmos que serviam de alimentos,como peixes e pequenos mamíferos),esculturas colares, pontas de osso, lamina de machado,dentes de porco – do – mato.



– exibição.
Em cima ou ao lado da cova, coberta com pedras,era acesa uma fogueira, para que o enterro fosse visto pelos sambaquis vizinhos. Depois, sobre covas e cinzas,eram depositados ossos e peixes ,sobras do festim.




FESTAS PARA OS MORTOS.
Esses povos pré-históricos comiam vegetais, mas sua dieta vinha essencialmente do mar. Hábeis pescadores,mergulhadores de águas profundas, navegavam de canoa e chegavam a capturar tubarões,baleias, golfinhos e arraias. E eles também escolhiam para se instalar,lugar bem servido pela natureza, como mar, mangue, enseadas e matas. Essa diversidade ambiental lhes garantia o necessário para sobreviver: peixes pequenos, mamíferos para alimentação, madeiras para canoas e cabanas.
As conchas serviam para o sambaqui e para os rituais funerários. Segundo Madu Gaspar, o calcário retarda o processo de decomposição dos ossos – e permite que hoje eles possam ser observados e estudados. Esculturas de pedra e outros materiais, como colares de dente de diversos animais (porcos- do- mato, tubarões e jacarés. Eram enterrados com os mortos. As pessoas de maior prestigio no grupo ganhavam mais ornamentos,penas oferendas de comida. Sobre os corpos soterrados,os sambaquieiros faziam uma festa.
De onde eles vieram, não se sabe. “ Acredito que tenha existido uma cultura marítima muito antiga,que não sabemos de onde partiu, e que alguns ramos possam ter surgido no interior do país. Mas ainda falta para localizarmos as origens desses grupos”, diz Maria Cristina Tenório,lembrando que sambaquis não são uma exclusividade da costa brasileira. Aparecem em países como Argentina, México,Estados Unidos,Japão e Dinamarca. Mas a falta de comunicação entre os pesquisadores e a desigualdade no investimento entre os países atrasa os estudos.
As camadas superiores (portanto as mais recentes) de muitos sítios apresentam restos de cerâmica. Esse material não era produzido pelos sambaquieiros,com exceção daqueles do Nordeste,que dominavam a técnica. Isso significa que,em algum momento,começou a haver contatos com povos tupi e Jê. Outras mudanças em rituais de sepultamentos,como a prática de cremar os corpos,também são indicativos de uma aculturação.

ARTESÃOS DOS ESCOMBROS.
Sambaquieiros fizeram escultura, machados e peças de cerâmicas.

Sabe-se que os sambaquieiros , de norte a sul, eram pescadores, juntavam conchas, construíam em morros e ali enterravam seus mortos. Mas desde a função dos sambaquis até as habilidades manuais desses grupos,passando por rituais de sepultamento e de manejo de vegetais, há diferenças marcantes de uma região para outra. Por exemplo, no artesanato criado com a matéria do sambaquis. Ao Sul do Vale da Ribeira, em São Paulo, faziam esculturas de pedra, os chamados zoólitos, que chamam atenção pelo polimento perfeito e pela quantidade de detalhes. Em algumas reproduções de peixes , distingue-se a espécie e até o sexo do bicho. Outros motivos mostram figuras geométricas ou rodas dentadas. Os zoólitos são tão bonitos quanto raros. Até agora só foram encontradas 220 peças no Rio de Janeiro, por sua vez os grupos fabricavam lâminas de machado. No sitio Ilhote do leste,na Ilha Grande, Maria Cristina Tenório, estima que teriam sido polidas mais de 200 mil pedras para servirem como lâminas. Ainda hoje, caminhando na região, pela praia do aventureiro, podem ser vistos blocos de pedras usados para fabricar essas ferramentas. Como não há sinais de conflitos internos ou com outros grupos, acredita-se que essas ferramentas serviam para cortar madeira para construção de canoas e cabanas, ou em trocas com grupos de outros sambaquis próximos.
No Nordeste (Bahia,Pará e Maranhão), os escassos estudos feitos até agora encontraram cerâmicas. Os pesquisadores não sabem explicar, até hoje, porque só os grupos dessa região desenvolveram essa técnica. Cristina Santana, arqueóloga da Bahia,diz que , no litoral norte do estado, encontraram material em camadas de 4300 anos a 3500 anos atrás. Já na baía de Todos os Santos,há cerâmicas mais recentes, de 2800 anos.

Sambaquis: material bom para fazer esculturas,lâminas e até cerâmica.

Agradecimentos: revista “Aventuras na História” com título Índia. Pgs do 40 ao 43.
Texto escrito pela professora e arqueóloga Maria Cristina Tenório.

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